quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Amigos compartilho com vocês mais uma vez, um artigo escrito pelo professor Gismair Teixeira, o qual também foi publicado em O Popular. Um texto no qual, nosso intelectual professor busca respaldo na teoria bakthiniana para reforçar seus argumentos com relação a eleição do palhaço Tiririca. Quanta perspicácia, meu amigo!

Mikhail Bakhtin e Tiririca

Um dos maiores gênios da literatura universal é sem dúvida alguma Fiodor Dostoiévski. Nos campos da análise literária e linguística, o seu conterrâneo Mikhail Bakhtin rivaliza com ele em importância, sendo considerado um dos maiores teóricos do século 20. Uma de suas obras mais conhecidas no Brasil é Os problemas da poética de Dostoiévski. Nesta peça ensaística sobre a produção de Dostoiévski, Bakhtin retoma os seus apontamentos de pós-graduação sobre a estética de Rabelais, quando abordou o processo de carnavalização no contexto medieval e sua expressão no campo literário.
O crítico russo trata o tema sob uma perspectiva cultural privilegiada. Segundo ele, as festas de carnaval permitem uma subversão na hierarquia dos estratos sociais, quando as classes que compõem a base da pirâmide social podem ridicularizar as que estão acima, despertando humor e não revolta nos elementos dominantes. Em outras palavras, é uma trégua na guerra de classes a que se refere Karl Marx em seus escritos. Nesta linha, ficaram famosos personagens como o pícaro e o bobo da corte, sendo conferido a este último o direito de dizer verdades para o rei que levariam ao degredo ou à forca qualquer outra pessoa.
A política brasileira, em seu ainda recente período de democracia plena, tem se revelado um terreno fértil de aplicação dos pressupostos de Bakhtin. A consagração nas urnas de artistas em declínio, jogadores de futebol em fim de carreira e outras personagens exóticas é um dado que configura esta extensão. Neste particular, o imbróglio da eleição do comediante e ex-palhaço Tiririca no último pleito é o mais recente e emblemático caso. Desde o mote de campanha do candidato, algo como “Vote em Tiririca, pior do que tá não fica”, até a sua expressiva votação e ainda as canhestras disputas judiciais em torno da legitimidade de sua eleição por conta de seu suposto analfabetismo, tudo conduz à teoria bakhtiniana da carnavalização como instância de afrouxamento dos rigores que normalmente imperam numa sociedade organizada.
Não deixa de ser picaresco em alguns aspectos os dados jurídicos apresentados no processo do comediante que tem na palavra “abestado” um bordão artístico. Segundo noticiou a imprensa, testemunhas afirmaram que Tiririca leu e compreendeu 30% daquilo que lhe foi apresentado. Como se pode mensurar a percentagem exata num caso destes é algo que ainda precisa de uma explicação convincente. Ao referir-se à carnavalização, Bakhtin fazia referência àquele período de festas mascaradas que dura cerca de uma semana, quando tudo é permitido. Na política, são quatro anos. É temerário, para dizer o mínimo.

GISMAIR MARTINS TEIXEIRA – Mestre em Literatura pela UFG e professor

Um comentário:

  1. Tudo a ver, Lívia. E nesse processo todo a Educação fica em último lugar. Quero parabenizar todos os Professores, que apesar de tudo AINDA continuam sua tarefa!

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Amigos compartilho com vocês mais uma vez, um artigo escrito pelo professor Gismair Teixeira, o qual também foi publicado em O Popular. Um texto no qual, nosso intelectual professor busca respaldo na teoria bakthiniana para reforçar seus argumentos com relação a eleição do palhaço Tiririca. Quanta perspicácia, meu amigo!

Mikhail Bakhtin e Tiririca

Um dos maiores gênios da literatura universal é sem dúvida alguma Fiodor Dostoiévski. Nos campos da análise literária e linguística, o seu conterrâneo Mikhail Bakhtin rivaliza com ele em importância, sendo considerado um dos maiores teóricos do século 20. Uma de suas obras mais conhecidas no Brasil é Os problemas da poética de Dostoiévski. Nesta peça ensaística sobre a produção de Dostoiévski, Bakhtin retoma os seus apontamentos de pós-graduação sobre a estética de Rabelais, quando abordou o processo de carnavalização no contexto medieval e sua expressão no campo literário.
O crítico russo trata o tema sob uma perspectiva cultural privilegiada. Segundo ele, as festas de carnaval permitem uma subversão na hierarquia dos estratos sociais, quando as classes que compõem a base da pirâmide social podem ridicularizar as que estão acima, despertando humor e não revolta nos elementos dominantes. Em outras palavras, é uma trégua na guerra de classes a que se refere Karl Marx em seus escritos. Nesta linha, ficaram famosos personagens como o pícaro e o bobo da corte, sendo conferido a este último o direito de dizer verdades para o rei que levariam ao degredo ou à forca qualquer outra pessoa.
A política brasileira, em seu ainda recente período de democracia plena, tem se revelado um terreno fértil de aplicação dos pressupostos de Bakhtin. A consagração nas urnas de artistas em declínio, jogadores de futebol em fim de carreira e outras personagens exóticas é um dado que configura esta extensão. Neste particular, o imbróglio da eleição do comediante e ex-palhaço Tiririca no último pleito é o mais recente e emblemático caso. Desde o mote de campanha do candidato, algo como “Vote em Tiririca, pior do que tá não fica”, até a sua expressiva votação e ainda as canhestras disputas judiciais em torno da legitimidade de sua eleição por conta de seu suposto analfabetismo, tudo conduz à teoria bakhtiniana da carnavalização como instância de afrouxamento dos rigores que normalmente imperam numa sociedade organizada.
Não deixa de ser picaresco em alguns aspectos os dados jurídicos apresentados no processo do comediante que tem na palavra “abestado” um bordão artístico. Segundo noticiou a imprensa, testemunhas afirmaram que Tiririca leu e compreendeu 30% daquilo que lhe foi apresentado. Como se pode mensurar a percentagem exata num caso destes é algo que ainda precisa de uma explicação convincente. Ao referir-se à carnavalização, Bakhtin fazia referência àquele período de festas mascaradas que dura cerca de uma semana, quando tudo é permitido. Na política, são quatro anos. É temerário, para dizer o mínimo.

GISMAIR MARTINS TEIXEIRA – Mestre em Literatura pela UFG e professor

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  1. Tudo a ver, Lívia. E nesse processo todo a Educação fica em último lugar. Quero parabenizar todos os Professores, que apesar de tudo AINDA continuam sua tarefa!

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